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Vitor Gabriel Rodrigues
18 de dez. de 2025, 19:03

Enfrentando o luto nas festas de fim de ano


O fim de ano costuma ser marcado por encontros, reencontros e celebrações. Porém, para muitas famílias e amigos que perderam entes queridos, especialmente aqueles que aguardavam na lista de espera por um transplante, este período ganha outros contornos. É um tempo em que a dor se intensifica, porque a despedida prematura vem acompanhada da interrupção de uma esperança que se alimentava diariamente. Trata-se de um luto singular, marcado não apenas pela ausência física, mas também pela quebra de uma expectativa de "cura" e continuidade que esteve tão presente durante a jornada.


Para quem vive essa experiência, reconhecer a própria dor é um ato de coragem. Validar sentimentos como tristeza, revolta, incredulidade, cansaço emocional e saudade profunda não enfraquece; ao contrário, nomear esses afetos legitima a dimensão humana desse luto. Em uma época em que expressões como “espírito natalino” e “renovação” surgem quase automaticamente, é fundamental respeitar o seu próprio tempo e compreender que não existe uma maneira correta de enfrentar a ausência.


Nesse processo, encontrar caminhos para lidar com a saudade pode aliviar, ainda que brevemente, o peso desses dias. Ressignificar memórias não significa amenizar a dor, mas dar espaço para que a história compartilhada continue viva. Realizar atividades que lembram momentos felizes ao lado de quem partiu, recontar histórias, acolher lembranças que aquecem o peito ou até permitir que o silêncio possa transformar a saudade em um elo afetivo que permanece, tendo em mente que o vínculo não desaparece, apenas se transforma e encontra outras formas de existir.


Ao olhar para essas vivências, também somos convocados a ampliar a empatia social. As trajetórias de quem aguardava um transplante evidenciam não apenas a fragilidade da vida, mas a urgência de um diálogo mais aberto e humano sobre a doação de órgãos sobre o misto de sentimentos que gera estar nesta posição. Acolher as famílias que viveram essa longa e difícil espera, compreender sua dor e promover conversas responsáveis sobre o ato de doar fortalecem uma rede de solidariedade capaz de salvar vidas e honrar histórias.


Para quem deseja estar ao lado de alguém atravessando esse luto, presença e sensibilidade são essenciais. Estar perto não é invadir, é ouvir. É respeitar limites, oferecer companhia sem exigência, reconhecer as pausas e compreender. Às vezes, o gesto mais acolhedor é simplesmente estar ao lado, sem julgamentos e pressões.


Que este período, tão carregado de simbolismos, também possa ser um tempo de cuidado coletivo. Que a saudade encontre acolhimento, que a dor seja reconhecida e que a empatia se torne um gesto cotidiano. E que, ao falarmos com mais naturalidade sobre a doação de órgãos, possamos transformar, cada vez mais, a realidade do nosso país.